"Como ocorria em faladores Rosa Antuña assume um papel específico: além de dançar, canta e balbucia um idioma inventado - como um ser falador. A quem é dado um lugar diferenciado, à altura das ressonâncias e experimentações dos seus, digamos assim, canais de expressão.
Mais que bailarina, uma artista em plenitude" - Miguel Anunciação para o Hoje em Dia - Belo Horizonte

PRÓXIMAS APRESENTAÇÕES E WORKSHOPS

2015
* Belo Horizonte:
- 22 de setembro - CRModa - A Mulher que Cuspiu a Maçã - 19:30h (Cena-Música)
- 20 de agosto - CC Vila Santa Rita - A Mulher que cuspiu a Maçã - 19:00h (Cena-Música)
- 18 de agosto - CCJardim Guanabara - A Mulher que cuspiu a Maçã - 19:00h (Cena Música)
- 17 de julho - CRModa - A Mulher que Cuspiu a Maçã - 21:00h (Cena Música)
- 7 a 10 de maio - CCBB - A Mulher que Cuspiu a Maçã - ESTREIA NACIONAL

* Brasília
- 22, 23 e 24 de abril - Teatro da Caixa - Trilogia do Feminino

2014
* Holstebro, Dinamarca:
- 12 e 17 de dezembro - A Mulher que Cuspiu a Maçã, direção Roberta Carreri - (Núcleo de Criação Rosa Antuña) - Ensaio Aberto - work in progress - Odin Teatret

segunda-feira, 21 de abril de 2014

10 - Terceiro dia no Odin Week - 19 de março

E no dia seguinte de manhã, fizemos duas horas de aula com Roberta Carreri e logo após ela fez mais duas horas de seu trabalho/demonstração intitulado PEGADAS NA NEVE. Isso porque na véspera, à noite, ela havia apresentado Judith, um trabalho solo intenso, dificilíssimo!!! E ela é uma artista com 60 anos de idade. Mas ela tem muito mais vigor e energia do que muitos jovens artistas que conheço. Aliás, isso é uma característica dos atores do Odin. Todos são vigorosos, presentes, enérgicos, atentos, vivos. E todos são assim em cena e fora de cena.

À tarde foi a vez de assistirmos Júlia varley com seu monólogo THE CASTLE OF HOLSTEBRO II.
Júlia chega plena de presença. A peça vai se construindo diante de nossos olhos. Uma atriz totalmente à serviço da ARTE. De repente a peça vai crescendo de tal forma... com sons enormes produzidos por Júlia... e junto desses sons sentimentos e emoções são produzidos em nós. Quando vi eu já estava chorando de novo. Mais uma mestra em cena... que honra poder vê-la. E aprender com ela o que é integridade cênica.
Júlia é como uma xamã. Poderosa. Simples. Segura. Conectada com a Terra e com os poderes sagrados do feminino. É assim que a percebo. É assim que sinto sua presença.

Depois da peça precisei ficar sozinha, em silêncio. Não estava triste, nem encucada, nem em crise. Simplesmente precisava ficar em silêncio.

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Após o jantar foi a vez de vermos ITSI BITSI, com a atriz Iben Nagel e os atores e músicos Kai Bredhold e Jan Ferslev. Como a peça seria apresentada em dinamarquês, nos deram antes o texto em espanhol para que soubéssemos do que se tratava. Li por alto.

Sentei na primeira fila. Para quê? Por que eu fiz isso? Por que eu me sentei na primeira fila? E não era qualquer primeira fila, eram cadeirinhas praticamente no palco!

Bem, sobre essa peça em dinamarquês? Comecei entrando em profundo silêncio. Depois eu suspirava. Depois eu suspirava com som. Então fiquei com os olhos úmidos. Depois começaram a escorrer lágrimas. Depois, além das lágrimas, meu nariz também começou a escorrer. Comecei então, lindamente a soluçar e finalmente tive que tampar minha boca com as mãos para que meu choro não atrapalhasse a peça que era em dinamarquês e que eu tinha apenas lido o texto por alto e mal entendia o que diziam!!!!

A peça tocou diretamente meu coração, meu inconsciente, minha alma, sei lá mais o quê! Nem quero saber! Nunca senti isso antes! Não sabia que era possível sentir isso vendo uma peça em dinamarquês que mal entendemos!!! Mas eu entendia tudo de uma maneira que não sei explicar!

A peça em si traz uma força. A presença dos três atores traz outra força. A presença das personagens mais outra força. Tudo tinha uma consistência que há muito tempo eu não via ou sentia. E ao mesmo tempo, era tudo tão poético, delicado, sutil. Havia tanto amor ali. Eu me emocionava vendo a peça em si e me emocionava ao ver aquelas pessoas que estavam ali atuando à serviço da ARTE.

Bem, em apenas três dias de Odin Week eu já havia desidratado de tanto chorar! O que seria de mim ao longo desses dez dias? Será que Rosa após sua profunda transformação iria desistir de tudo e vender imóveis? Será que Rosa partiria em busca de uma marido rico? Será que Rosa voltaria para o Brasil mandando todo mundo tomar no cu? Há, isso ela já costuma fazer... Aguardemos as cenas dos próximos capítulos de Transformação no Odin Week.

9 - Após assistir JUDITH - 18 de março

Após assistir Judith, com Roberta Carreri, em 18 de março:

" Como encontrar o caminho?
Do silêncio?
Como chegar nesse lugar?
Como encontrar?

Como não chorar depois de vê-la?

Tenho vontade de sair correndo.

Parece que tudo desmoronou. Não a minha volta, mas dentro de mim.

Existem alguns poucos artistas com a capacidade de te curar, de te transformar de verdade. Profundamente.

Não sei dizer quais foram os muros que caíram, pois o que sinto agora é que tudo veio abaixo dentro de mim.

Anos de leitura, estudo, tentativas.... e nada surtiu o efeito que Judith, com Roberta Carreri, causou em mim.

Ela se curou com este solo... e me curou também. Não sei do quê... Não sei em quê...
Ela me transformou em algo...
Não sei ainda em que me transformei...
Alguns artistas, que são mestres, têm essa capacidade... de transformar a gente em coisas que não sabemos o quê.
Só sei que tudo veio abaixo dentro de mim.
Sinto um nada dentro de mim.
Sinto uma profunda sensação de início...

Eu disse que quero fazer meu caminho espiritual através da Arte... pois bem... sinto que agora ele começou.

Porque hoje fui tocada por ela...
por Judith...
... por Roberta Carreri.

8 - Dentro do esqueleto da Baleia, direção Eugênio Barba

Após o jantar foi a hora do primeiro espetáculo : INSIDE THE SKELETON OF THE WALE (Dentro do Esqueleto da Baleia).

Foi incrível. Tudo no Odin é solene. O ofício do ator é sagrado. As pequenas coisas nos fortalecem para as grandes coisas. Tudo é treinamento. Tudo é exercício de vida. Tudo é natural. Tudo é simples. Tudo é profundo. Tudo é.

Entramos na sala branca. Duas grandes mesas, uma de frente para outra, próximas às paredes. Uma cadeira para cada um de nós. Uma vela na mesa diante de cada um de nós. Taças de vinho e pão. Anne e Eugênio nos serviram o vinho, olhando em nossos olhos. Pensei: "Eugênio Barba nos serviu vinho..." E com isso ele estava nos ensinando a servir. Servir tanto nas pequenas coisas da vida, quanto a um propósito maior: A ARTE.

A peça foi emocionante. Todos os atores do Odin com uma intensidade cênica... anos de estrada... Chorei demais. Uma energia muito forte. Uma sensação de presença. PRESENÇA.

Quando acabou os atores simplesmente foram embora. Ficamos ali. Em silêncio por um bom tempo. Eu queria apenas ficar parada respirando. Realmente eu não tinha vontade de fazer nada. A vontade era de viver aquele silêncio recheado de algo que não sabíamos definir o que, mas incomodava. Era um silêncio gordo. Era um silêncio gordo. Comecei a comer o pão  e a beber o vinho. Era um silêncio gordo.

Então alguns aplaudiram... mas não deu muito certo.

Os atores entraram novamente com roupas normais(não mais com os figurinos da peça) e brindaram com cada um de nós, olhando em nossos olhos. Sublime.
Que respeito, que acolhimento, que delicadeza... que delícia!...

E assim eles nos deram as boas-vindas!

Então nós arrumamos o local e conversamos um pouco. Fomos para nossos quartos. Eu e Angelina estávamos em êxtase, com os olhos arregalados e úmidos e vermelhos. Conversamos até bem tarde. Foi difícil dormir naquela noite.

7 - Primeiro encontro com Eugênio Barba

Às 17:00hs foi nosso primeiro encontro com Eugênio Barba.
Chegamos na sala vermelha e as cadeirinhas já estavam dispostas em um grande círculo. Éramos 50 participantes vindos do Brasil, México, França, Ilha de Malta, Eslováquia, Dinamarca, China, Itália, EUA, Taiwan, Suíça e Noruega.

Foi emocionante estar ali com Eugênio e aquele grupo de pessoas vindas de todas as partes do mundo... é como quem tem que ir à Meca... sim, nós chegamos à nossa "Meca".

Eugênio agradeceu a cada um de nós pelo esforço que fizemos para estar ali. Que a nossa presença ali mostrava a ele a importância do Odin Teatret. Pessoas do mundo todo foram parar em Holstebro, interior da Dinamarca, para participar do Odin Week durante dez dias.
Ele também nos disse para mantermos nossa chama acesa... para mantermos vivo o teatro que acreditamos... para não fazermos concessões, que teatro não é mero entretenimento. Levantou a questão sobre qual o teatro que queremos fazer nas nossas vidas. Existe conceito, existe estudo, existe pesquisa. E existem as escolhas que fazemos.

Depois cada um se apresentou (em inglês). A maioria dos chineses e dos mexicanos não falava inglês. E cada país tinha seu "próprio" inglês. Interessante! rs...


6 - A Chegada no Odin Teatret

Chegamos no Odin! Expectativa...fazia muito frio... uns sete graus. Eu nem imaginava como seria!
E tive uma bela surpresa! Um lugar calmo e lindo. Mas logo vimos vimos Roberta Carreri passando apressada por ali!rs...

Entramos na casa. Fomos recebidos por Roberta, com muito carinho. E então uma "fadinha ruiva francesa"chamada Kiki nos mostrou toda a sede do Odin. Fiquei toda arrepiada. Um lugar de sonho! Cada cantinho maravilhoso! Um cuidado... Um esmero... Um carinho... Algumas partes da casa me lembrou o mundo dos Hobbits! Fiquei muito emocionada por estar ali. Angelina também. Mal conseguíamos falar. Senti a presença de ilustres seres iluminados...

Achamos nosso quarto lindo! Como foi bom me sentir estudante! Eu já não tinha vontade de ir embora daquele lugar nunca mais! Estávamos cercadas por livros de grandes autores, por obras de arte do mundo todo, fotos de toda a trajetória do Odin... alimentos que inspiram... que nos elevam... que nos motivam. Eu e Angelina seríamos colegas de quarto. Que delícia! Senti que seriam dez dias maravilhosos e inesquecíveis.



5 - Para Holstebro - 17 de março

Acordei cedo. Tomei café e fui para a estação com meu malão de trinta quilos. A estação ficava a cem metros do hotel. Tudo plano. E na estação havia elevador. Pedi informações. Todo o tempo vi um cara bonito, muito alto, com cara de perdido... com cara de... de... de ator! Pensei: "deve estar indo para o Odin" mas fui acometida por uma síndrome de jacu e não perguntei.

Entrei no trem. Antes devo observar que me identifiquei muito com as dinamarquesas pois elas também não penteiam muito os cabelos e vivem com os cabelos bagunçados, como eu. Isso me trouxe paz e aconchego. Entrei no trem. Todos falando dinamarquês. Não entendi lhufas! Entrou então uma moça cheia de malas, com cara de cansada, com cara de perdida, com cara de... de... de atriz! Pensei: "deve estar indo para o Odin" mas novamente a síndrome de jacu veio e não perguntei nada.

Após quatro horas de uma viagem confortável o trem chegou em Holstebro, cidade do Odin Teatret. Eu estava emocionada. Entusiasmada. Me senti Harry Potter chegando para conhecer a escola dele pela primeira vez.

Desço do trem. É claro que pedi a um rapaz para descer minha suave mala de trinta quilos para mim (na Inglaterra não preciso pedir). E na estação já está Angelina sorridente! Ela veio no mesmo trem que eu! Combinamos de nos encontrar na estação, mas era para ela ter vindo em outro trem. Não havia taxi. Não havia nada. Havia um rapazinho nativo que ligou para um taxi pois Angelina pediu. E havia também aquele moço alto bonito e perdido e aquela moça cansada, cheia de malas e perdida.

Chegou nosso taxi. Angelina chamou o moço e sim, ele ia para o Odin. Então a moça veio pedir para o taxista mandar outro taxi para ela, que ela iria para o Odin e o taxista logo foi mandando que ela entrasse no carro. É... eu estava certa!

Reunida a trupe, partimos. Eu, Angelina, Marco(Itália) e Emily(EUA). Era ali o início de uma bela amizade!

4 - Em Copenhagen - mulheres búlgaras (o caso do turco)

Fui a um shopping lotado de muçulmanos. Não fui ao Tivoli Parque, fui a um shopping lotado de muçulmanos. Gosto de descobrir o que tentam me esconder.
Neste shopping almocei num restaurante grego ótimo. Elogiei o cheff, um turco muito sorridente e simpático, que inclusive não deixou que eu pagasse a conta e me adicionou no facebook! Quando vi, já estávamos conversando há algum tempo e quatro mulheres búlgaras(que cozinhavam no restaurante), com vozes búlgaras estavam sentadas a minha volta, falando em búlgaro que eu deveria me casar com o turco... pensei: eu devia ter ido no Tivoli Parque.

Caminhei pela cidade após o almoço. Me perdi, é claro. Mas depois me achei. Frio. Muito frio. Poético. Muito poético. Um frio muito poético. Mas quando o vento exagerava, me trazia de volta a realidade: para que eu adicionei o turco no face?

Fui para o hotel, meditei e dormi.

3 - Chegando em Heathrow, aeroporto de Londres - 15 de março

A viagem foi ótima. Vôo tranquilo. Balançou muito pouco, para minha alegria. Até dormi um pouco, o que é raro para minha mente hiperativa e controladora!

Chegamos em Londres!!! Que emoção!!! Um céu azul lindo com um maravilhoso sol dourado brilhando lá fora!!! Agora eu pegaria outro vôo para Dinamarca, rumo à Copenhagen.

Desci do avião e fui seguindo os avisos roxinhos do flygth conexion. Muito óbvio(isso é um elogio). Sempre pessoas bem preparadas dando informação.Seguimos um corredor, descemos de elevador, pegamos uma espécie de metrô (acreditem, não me perdi!!), subimos um elevador e seguimos reto! De repente vejo uma fila enorme que andava para "conexões internacionais". Eu disse andava, sim, aqui A FILA ANDA de verdade!!! Tudo calmo e silencioso. Havia ordem e paz. Como isso me faz bem! Quanta civilidade! A fila passava por um mural com todas as explicações extremamente didáticas sobre tudo o que não se pode levar na bagagem de mão! E havia os lixinhos para deixar ali as coisas indevidas e também já havia ali mesmo os saquinhos plásticos para embalar o que era preciso embalar para poder entrar no avião.

Passei pelo passaporte, ok.

E lá fomos nós de novo seguindo um caminho bem sinalizado como a trilha dos tijolos amarelos de Dorothy. Diante da escada rolante havia um holograma de uma mulher que dava explicações sobre tudo o que não se pode levar na bagagem de mão (só para não dizermos que não fomos avisados).

Subimos a escada rolante e então... fiquei impressionada com o que vi! O País de OZ!!!!! Sim! Só podia ser!!! Uma fila gigantesca que, como eu já disse, andava!!! A fila no aeroporto de Heatrhow anda! Muitos guichês e tudo muito organizado, educado e um sistema muito inteligente! Me senti assim... tão tupiniquim... Eram esteiras rolantes maravilhosas, nós pegávamos nossa caixona, púnhamos nossas coisas lá para passarem na máquina que apita ou não, e enquanto "a coisa" rodava, passávamos pelo portal mágico do apito. Era tudo tão organizado que os que trabalhavam lá tinham até uma certa cara de tédio... Então pegamos nossas coisas na nossa caixona e a colocamos num cantinho, como se fosse uma praça de alimentação! Como eu estava carregando muita coisa, o senhor gentil atrás de mim disse para eu não me preocupar que ele guardaria a caixa para mim. Gentilezas da civilidade!