"Como ocorria em faladores Rosa Antuña assume um papel específico: além de dançar, canta e balbucia um idioma inventado - como um ser falador. A quem é dado um lugar diferenciado, à altura das ressonâncias e experimentações dos seus, digamos assim, canais de expressão.
Mais que bailarina, uma artista em plenitude" - Miguel Anunciação para o Hoje em Dia - Belo Horizonte

PRÓXIMAS APRESENTAÇÕES E WORKSHOPS

2015
* Belo Horizonte:
- 22 de setembro - CRModa - A Mulher que Cuspiu a Maçã - 19:30h (Cena-Música)
- 20 de agosto - CC Vila Santa Rita - A Mulher que cuspiu a Maçã - 19:00h (Cena-Música)
- 18 de agosto - CCJardim Guanabara - A Mulher que cuspiu a Maçã - 19:00h (Cena Música)
- 17 de julho - CRModa - A Mulher que Cuspiu a Maçã - 21:00h (Cena Música)
- 7 a 10 de maio - CCBB - A Mulher que Cuspiu a Maçã - ESTREIA NACIONAL

* Brasília
- 22, 23 e 24 de abril - Teatro da Caixa - Trilogia do Feminino

2014
* Holstebro, Dinamarca:
- 12 e 17 de dezembro - A Mulher que Cuspiu a Maçã, direção Roberta Carreri - (Núcleo de Criação Rosa Antuña) - Ensaio Aberto - work in progress - Odin Teatret

terça-feira, 9 de junho de 2015

5 - sobre A Mulher que Cuspiu a Maçã, por Prof José Maria Santos

Depois de assistir a apresentação do espetáculo  “A Mulher que Cuspiu a Maçã”, o Prof. José Maria Santos enviou suas impressões em mensagem que o blog Ociosidades&Bagatelas faz questão de postar:
Caro amigo Nilseu,
Escrevo-lhe a fim de agradecer-lhe o presente recebido na forma de um convite para assistir ao espetáculo "A Mulher que Cuspiu a Maçã", apresentado por Rosa Antuña. Fiquei mesmerizado do primeiro ao último minuto. Perfeita é o adjetivo para apropriado para sua performance. Ela demonstrou ser uma artista incrível, capaz de executar um solo de uma hora sem deixar de dominar o espaço do palco por um minuto sequer, usando apenas o corpo como expressão de múltiplas emoções e retirando de um número limitadíssimo de objetos simples (uma necessaire, um par de sapatos, uma escova de dente, uma calcinha sexy e um pedaço de tecido) uma quantidade inacreditável de significados e potencialidades.
Esse é um espetáculo que enobrece o termo "modernidade", tão vilipendiado por fraudes sem conta de pseudoartistas que o usam para justificar suas limitações. Rosa Antuña, ao contrário, é visceral, e por isso nos atinge no âmago com sua ironia, com sua paródia iconoclasta, com sua capacidade de dominar o público o tempo todo com seu olhar cortante como aço, como se exercesse domínio sobre cada um dos espectadores individualmente. Julgo um privilégio ter tão perto de nós uma artista tão linda e com um talento tão extraordinário, acostumados que estamos a ver performances desse nível somente em terras estrangeiras. E foi com o coração acelerado pela emoção do espetáculo que somei meus aplausos espontâneos e incontidos aos dos espectadores que, emocionados, com muita justiça, aplaudiram-na de pé!
José Maria

4 - A força que elas têm - por Malluh Praxedes

Um fim de semana atípico: sexta-feira assisti ao show de Monica Salmaso (ao lado de Dori Caymmi) interpretando o incomparável Dorival, Maria Bethânia completando 50 anos de carreira e a interpretação de Rosa Antuña com o espetáculo “A mulher que cuspiu a maçã”. Sábado era dia de Maria Bethânia no show “Abraçar e Agradecer” em que comemora os 50 anos de carreira, que começou lá com a música ‘Carcará’...
(...)
Domingo, dia das mães. Fim de noite e vou lá para o teatro do CCBB – Centro Cultural Banco do Brasil para assistir a última apresentação de Rosa Antuña com seu espetáculo “A mulher que cuspiu a maçã”. Não, não há muito o que falar. É preciso assistir para se emocionar do princípio ao fim. Quarenta e cinco minutos de adrenalina e comoção. Como pode uma única criatura em cena transformar a vida num ir e vir de ser e não ter e querer e escolher e pedir e desistir e envolver e sensualizar e jogar o resto da maçã para o ar. Assim é o resumo desse espetáculo. Resumo, repito, pois não há como dimensionar cada gesto, cada olhar, cada ‘suspiração’ dessa bailarina, dançarina, atriz, performer chamada Rosa Antuña.
O palco é dela. Assim como Monica abusa dos graves e Bethânia das emoções, Rosa Antuña se transforma numa artista antenada em seu tempo presente passado futuro. Ela não surgiu agora. Ela mostra que ouviu muito, viu tudo e olha com detalhe a evolução de cada uma de nós. Ela respira vida, transforma o riso em choro, as lágrimas em sal da terra. Foi um fim de semana especial. Conheci e reconheci a força de três mulheres que são assim: de carne, osso e alma. Com silêncio e respeito. Com alegria e dor. Com abraço e agradecimento. Com amor e emoção.
Malluh Praxedes (11-5-2015)

3 - Estreia A Mulher que Cuspiu a Maçã - CCBB BH

Após o sucesso da temporada em Brasília, chegou a hora dos preparativos para a temporada de estreia em BH, de A Mulher que Cuspiu a Maçã, no Centro Cultural Banco do Brasil.
Quem fez minha assessoria de imprensa e arrasou foi minha amiga querida Duda Las Casas!
Tive apoio de todos na divulgação do espetáculo nas redes sociais. Foi ótimo ter feito a pre-estreia do solo em Brasília, isso me deixou mais segura.
Desta vez quem fez minha luz foi o Sidney Honório.
O teatro tem capacidade para 260 pessoas. Tive uma média de 180 pessoas por dia em 4 dias de apresentação. Muito bom! Ficamos satisfeitos! Além disso a repercussão foi maravilhosa... recebi textos lindos de pessoas que foram assistir... e abraços calorosos e lágrimas sinceras que me emocionaram também.
Gratidão a todos pelo carinho...

2 - Temporada Trilogia do Feminino em Brasília - abril - 2015 - Teatro da Caixa

A data da temporada em Brasília foi se aproximando. E eu ficando progressivamente mais e mais nervosa. Não adianta. Tem 31 anos desde que comecei a dançar. E ainda fico nervosa. Até que para dançar com a Cia Mário Nascimento, ou atuar em grupos de teatro... não fico nervosa não... apenas atenta. Mas para dançar os solos... entro em pânico. Fico num profundo estado de tensão. Principalmente ali, pois seria a primeira vez que eu faria a Trilogia seguida, cada dia um solo diferente. Minha auto-crítica gritando, me dizendo que ainda havia muita coisa que precisava ser mais trabalhada... Fico preocupada com o cenário... com a luz... com o som... Uma sensação de solidão... até que, faltando uma semana para a viagem, me acalmei pois deu tempo de fazer as correções que eu queria. Passei os 3 ensaios gerais para o Mário treinar o som e o Juninho refazer a luz com o Mário.
Tive todo o apoio do Stúdio It, dirigido pela minha amiga Elaine Reis, em BH. É lá que eu ensaio.
Pronto. No dia de viajar eu já estava mais tranquila. Mário e Juninho foram de carro levando meu cenário. Eu fui linda de avião.

A produção em Brasília foi impecável. Chang Produções, dirigida por Juana Miranda. Ela cuidou, com sua equipe, de todos os detalhes! Até da tapioca que gosto de comer como lanche no teatro... rs. Os restaurantes que fomos eram ótimos e saudáveis! Fora que a divulgação foi excelente! Saí nos jornais e na Veja Brasília (em sua última edição). E as fotos do meu querido amigo Marco Aurélio Prates bombando!!!

Quarta-feira, dia 22 de abril. Estreia da Trilogia do Feminino em Brasília! O Teatro da Caixa tem capacidade para 400 pessoas. Bem, havia 350 para ver Mulher Selvagem. Havia bem mais mulheres do que homens na plateia. E teve um grupo de estudo do livro Mulheres que Correm com os Lobos, da Clarissa Pínkola que foi falar comigo após a apresentação. Que carinho!

Na quinta, dia 23 de abril tivemos 280 pessoas vendo O Vestido.

Na sexta, encerrando a Trilogia do Feminino, havia 300 pessoas para ver A Mulher que Cuspiu a Maçã.

Foi sem dúvida, um grande sucesso de público. A Trilogia foi muito bem aceita. Ficamos (eu e toda a equipe) muito felizes com o resultado.

Foi emocionante para mim fazer os três solos assim seguidos. O trabalho ganhou outra dimensão para mim. Foi desafiador como intérprete. Senti que cresci muito como artista ao enfrentar este desafio.
Não é fácil estar sozinho em cena. Não tem quem te salve. Acho que então somos obrigados a nos doar ainda mais para a plateia, pois eles são tudo o que temos.

No dia seguinte eu estava esgotada. à noite peguei meu voo de volta a BH.
Tudo bem.

domingo, 7 de junho de 2015

1 - Preparativos para a Trilogia do Feminino em Brasília

Em BH. Levei um mês para me recuperar dos 2 meses de viagem.
Então minha produtora e amiga (de Brasília) Juana Miranda, me confirmou que eu faria sim, a Trilogia do Feminino no Teatro da Caixa em abril, em Brasília!

E à partir de fevereiro comecei o trabalho árduo de levantar meus três solos. Seria a primeira vez que eu os faria assim, seguidos, cada dia um.

Primeiro peguei o solo novo, A Mulher que Cuspiu a Maçã, pois eu teria que recoreografar as quatro primeiras coreografias, pois não estava satisfeita com elas. E também teria que lembrar tudo o que trabalhei com a Roberta no Odin. Difícil demais se auto-coreografar... sempre quero mudar... com isso nunca fixo os movimentos, pois sempre quando tento repeti-los tenho alguma ideia que considero melhor do que a anterior.... após muita luta comigo mesma, consegui.

Depois me dediquei muito à Mulher Selvagem. Havia dois anos que não apresentava este solo. Foi fantástico revisitá-lo após ter passado pelo treinamento com a Roberta e o Odin... Tive que fazer inúmeras alterações e correções no trabalho. Eliminei cenas... criei outras... acrescentei inúmeros detalhes fundamentais... mudei o texto todo... recoreografei também várias cenas. Agora fiquei mais satisfeita. O que aprendi com Roberta, pude aplicar também em Mulher Selvagem. Confesso que foi dolorido remontar este trabalho. Consegui vê-lo com distanciamento pela primeira vez. Sua estreia foi em 2010, tem cinco anos. Consegui ver no solo realmente sobre o que eu estava falando. Na época, o fiz de forma absolutamente intuitiva. Eu ia criando as cenas. Elas simplesmente saíam do meu inconscienete. Hoje eu compreendi a dimensão do assunto que eu tratava. Eu falava , eu falo, em Mulher Selvagem, sobre abuso. Abuso que eu mesma senti a vida toda. Abuso que me fez ficar calada por muito tempo. Um abuso consentido. Um abuso que todas as mulheres sofrem por terem nascido mulheres. Uma opressão silenciosa. Uma crítica severa e constante. Uma repressão velada e sufocante. E sim, como mulher eu cresci com isso e não sabia explicar o que era. E pus tudo para fora em Mulher Selvagem, ainda como um pedido de socorro. E foi " A Mulher que Cuspiu a Maçã", que veio salvá-la, ou salvar-me, ou salvar-nos.
Doeu ver como me senti avida inteira. Mas foi bom saber que não vivo mais nessa condição.
Agora eu brigo.

Deixei para trabalhar por último O Vestido. Fiquei meio desesperada. Foi o que deixei por último, por isso tive pouco tempo. Pensei que seria mais fácil, mas me enganei. Comecei a passar pelo mesmo processo de Mulher Selvagem, de querer modificar cenas inteiras... mas como sempre, Mário estava ali, do meu lado, e me acalmava quando eu começava a entrar em crise de ansiedade e auto-flagelação. rs... A cena dos confetes foi a mais dofícil para decidir. Sempre tive dúvida... não sobre a cena em si, que é muito forte. mas sobre o que devo dizer nesse momento... foi então que... vindo do processo de abuso que trata Mulher Selvagem, decidi falar sobre liberdade sexual feminina. Era isso! Fechei a cena. (detalhe: a estreia foi em 2013).

Senti que após A Mulher que Cuspiu a Maçã, os outros dois solos fizeram ainda mais sentido para mim. E artisticamente ganhei mais recursos para explorá-los de forma mais intensa. Eles ganharam camadas mais profundas. Está feita a Trilogia do Feminino.

11 - de volta para o Brasil

Saímos cedinho de Paris no dia 14 de janeiro. Descemos 6 andares. Carreguei muitos quilos de malas... foram 2 longos meses de inverno, onde tudo aconteceu ...
... a criação de A Mulher que Cuspiu a Maçã, no Odin Teatret, com a Roberta Carreri, num mergulho artístico muito profundo, num universo feminino muito doloroso... o encontro um amor profundo e intenso... resgates de amizades de 15 anos atrás.... o susto com a bolsa verde... frio, muito frio.... malas pesadas... trem, avião.... atentado terrorista... espetáculos... silêncio... vazio... medo... surpresas... boas cervejas... bons encontros... boas risadas... união... aproximação... afeto... acolhimento... proteção... mas tudo num constante estado de alerta.

(* só hoje estou dando conta de escrever sobre isso... agora é que processei... cheguei 14 de janeiro e hoje é dia 8 de junho!)

Eu me sentia voltando de uma longa batalha... realizada, vencedora, mas esgotada.

Mário foi nos buscar no Galeão. Que bom que ele estava lá... que alegria olhar para ele. Que alegria abraçá-lo... que alegria sentir a segurança e proteção e amizade que ele me transmite. Que bênção, que privilégio tê-lo na minha vida. A pessoa em que mais confio. Meu melhor amigo. Meu companheiro leal. Que alívio abraçá-lo ali.
Duda também estava esgotada. Se tudo foi intenso para mim, também foi para ela. Sei que foi uma viagem transformadora. Foi uma viagem muito importante. Foram muitos os desafios.

Mário a deixou na casa dela e em seguida me deixou na casa de amigos queridíssimos em Copa. Minhas costas estavam doendo.
O Rio estava uma loucura! Muito quente! Muita gente! Todo mundo gritando! Aquela agitação! Fui dois fins de tarde na praia... durante o dia acho que eu morreria de insolação!

Eu pretendia ainda fazer o workshop da Roberta Carreri no Rio! Mas minhas costas estavam doendo muito. Avisei que não iria participar... Eu estava é precisando urgentemente de descanso e da minha fisioterapeuta Andrea Mourão, que tanto amo... e da Arleime Fogaça, minha mestra de Quântica querida e amada! E dos meus pais... e do Lulu... e da minha cama... meu chuveiro... meu silêncio... minha paz.

Perdi o curso da Roberta, minha mestra querida, e voltei de carro com Mário para BH. Alívio. Era isso que eu precisava. Voltar para casa.


10 - Paris, edinburgh

Chegamos em Paris.
Enquanto voávamos o infeliz atentando (que provocou a grande manifestação Je Suis Charlie) estava acontecendo. Quando chegamos Paris estava em estado de alerta. Tensão no aeroporto, muitos policiais, um clima muito tenso. Pegamos um taxi, que nos explicou muito sem paciência o que havia acontecido, pois estávamos literalmente voando!

Chegamos em Montmartre, no prédio onde ficaríamos. Alugamos um apartamento fofo! Fomos muito bem acolhidas. Uma lástima o que havia acontecido em Paris............. não tenho palavras.

Deixei Duda descobrindo Paris e fui para Edinburgh.
Fiquei 4 dias com alguém que eu gostaria de ficar para sempre. A pior despedida de todas foi lá, ao sair de Edinburgh. É terrível a sensação de não sabermos se iríamos nos ver de novo ou não... é uma sensação de morte. Morte e impotência. Morte e revolta. Morte e vazio. Morte e medo. Morte e inconformidade. Na sala de espera. Eu diante para o corredor para embarcar. Parecia mentira que eu teria que passar por ali totalmente contra a minha vontade. As lágrimas escorriam incontrolavelmente. Silenciosamente. Os gritos eu gritava dentro de mim. Chegou a hora. Meu corpo se levantou. Peguei minha bagagem de mão. Parecia que minha alma tinha ficado sentada naquela cadeira. Era só meu corpo que ia embarcar. Eu não queria ir embora. Não fazia sentido ir embora. Não era justo. Não estava certo. Quem disse para vida que eu queria que fosse assim? Quem escreveu esse roteiro? Eu não gostei. Não era assim que eu queria.
Entrei no avião. Fiquei num estado anestesiado.
Chegou. Paris de novo. Ok.

Na volta, em Paris, me encontrei com meu amigo queridíssimo Expedito Araujo e tivemos bons momentos juntos caminhando pela cidade... amigos... se não fossem vocês, o que seria da vida? Seria algo insuportável.
 Fechamos Paris com chave de ouro ao vermos uma peça do Peter Brook, FRAGMENTS (de Samuel Bekett), em seu Teatre du Nord. Que qualidade... detalhes... delicadeza... uma atuação impecável dos 3 atores em cena.

Bem... a viagem foi chegando ao fim. Eu já estava com dor no pescoço, nas costas... já era hora de voltar para casa. Tudo muito intenso. Carreguei muita mala pesada.
Constatei que sou uma mulher muito forte.



9 - O que houve com a bolsa verde!!!

Esqueci de contar que: após o ano novo em Berlim, minha amiga Leslie (brasileira que mora em Hamburgo) me ligou dizendo que fuçou no site do achados e perdidos dos ônibus o dia inteiro, até que viu uma descrição de uma bolsa verde que havia sido perdida dia 29 de dezembro! E ela: "só pode ser a da Rosinha!". Ela anotou o número de cadastro da bolsa e me passou.
Um dia antes de ir a Hamburgo para vê-la (a Leslie) dançar, fui lá no achados e perdidos. Eu e Duda, minha companheira de guerra! rs..
Fiquei na fila rezando para Pai Benedito, para os Ganeshas e para todos os meus mentores e seres iluminados que são meus amigos e sempre me apoiam. Chegaou minha vez. Ai. Entreguei meu número. Ui. A mocinha loura ficou uns 20 minutos sumida lá dentro procurando. A fila nervosa, atrás de mim. Eu séria. Duda falando. Duda nunca para de falar. rs.
A mocinha desistiu. Pai Benedito me mandando confiar. Ganeshas resolvendo e abrindo e organizando caminhos e coisas. Então veio a alemanzona, tomou o número da mocinha loura e foi lá para dentro. Fuçou. Fuçou. Fuçou. Duda falando. Eu séria. A fila nervosa. Duda falando mais. Eu mais séria. A fila mais nervosa.

Até que...
 Ela vem. A BOLSA VERDE!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Eu comecei a chorar e a agradecer a todos os meus mentores! Duda em silêncio. A fila chocada.
A alemanzona que mandava no pedaço pediu para eu abrir a bolsa. ESTAVA TUDO LÁ DENTRO, ATÉ MEU CHOCOLATE!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Apenas meu celular não estava, pois tenho certeza de que ele caiu no ônibus num cantinho.
Recuperei passaporte, dinheiro, cartões, tablet, agenda, chocolate....

Gratidão!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

8 - Londres

De Hamburgo para Berlim. Fui pro aeroporto. Lá combinei de me encontrar com a Duda, que estava muito atrasada e eu preocupadíssima! De repente, a atendente me pergunta para onde eu iria "Londres", respondi. E ela: "você quer ir num vôo que vai sair agora mesmo, em menos de uma hora?". "Lógico!". (só na Alemanha mesmo... rs.
Quando eu estava quase embarcando a Duda chegou e consegui avisá-la que estava indo num voo antes dela.
Cheguei em Londres. Fui para casa do meu querido amigo-irmão-anjo da guarda Giovanni Ferrari.
Em Londres fico sempre bem... me sinto em casa. Pena que pounds(libras) são tão caros para nós. Então meu queridop caju Oliveira chegou, vindo de Dublin! Ele nos produziu lindamente em Natal quando dançamos lá(Cia Mário Nascimento). Agora Caju mora em Dublin e veio a Londres para gente matar a saudade! Delícia!!

Esta foi a viagem dos encontros especiais... nos 4 dias que fiquei lá me reencontrei com Fernanda Lippi, fomos colegas no Centro Mineiro (melhor nem dizer a data! rsrsrs...). E hoje ela tem uma trabalho lindo em Londres de cinema e dança. Orgulho.

Também me encontrei com Andreas Heise! Ele também foi meu colega na Palucca Schule Dresden! Também havia 15 anos que não nos víamos! Foi muita emoção para uma viagem só... Andreas está lindo! Primeiro bailarino do ballet de Oslo! Coreógrafo! E falando português fluente!! É tão lindo... estas amizades fazem com que nos reconectemos com quem fomos há 15 anos atrás....

Vi o DV8. Apresentaram JOHN. Gostei muito muito.

Chegado o dia.... despedi do Gio... meu querido.... e lá fomos eu, Duda e milhares de malas para o aeroporto. Rumo: Paris.

7 - Berlim - Hamburgo - lindos encontros

E a viagem continuou muito bem. Fui a Hamburgo e vi minha amiga-irmã Leslie Heylmann arrasando como primeira bailarina na Cia de John Neumaier. Mas uma linda surpresa foi que quem me buscou em Berlim pra irmos juntos até hamburgo foram meus amados Hans tappendorff e June Schlosser... meus amados professores quando estudei na Palucca Schule Tanz Dresden. Estudei lá de 96 a 98... e desde então não tínhamos mais nos visto.... foi um lindo encontro... ficamos muito emocionados.... passou um filme da minha vida nesse momento, quando os vi chegando, com os braços abertos pra me abraçar, naquele frio de Berlim... naquela época eu pensava que me tornaria uma bailarina clássica e que trabalharia numa grande cia na Europa!!! Meu destino foi bem diferente disso. Tive caminhos bem tortuosos. Nada foi fácil ou simples.
Senti alívio ao vê-los se aproximando. Tive uma sensação de família. Tive uma espécie de referência de mim mesma. Resgatei um fio que havia perdido... percebi que eu sentia um cansaço profundo. E olhar nos olhos do Tappi e da June me deu alívio e me trouxe calor.

Foi uma linda viagem até Hamburgo. E lá meu encontro com a Leslie, após 15 anos sem nos vermos, foi igualmente emocionante... existem laços de afeto que conseguimos fazê-los tão consistentes, que não se rompem com nada, nem com o tempo, nem com o espaço... era como se tivéssemos nos encontrado no dia anterior.
Fiquei muito orgulhosa e feliz de ver minha amiga tão bem, tão linda, amada... sei de o quanto foi difícil e quantos sacrifícios ela precisou fazer por isso. E me deu um orgulho de ver uma bailarina brasileira estrela do ballet de Hamburgo... e lá ela tem tudo o que merece, toda estrutura e todo respeito. Também no ballet de Hamburgo está minha querida Winnie, que foi minha aluna linda no Cefar, dançando algumas coreografias minhas... está fazendo uma linda carreira!

Bem... a despedida é sempre ruim... nos despedimos eu, June e Tappi, com um até breve... contemos nossas emoções que arderam no fundo dos nossos corações... e no dia seguinte, Leslie e o marido (querido!!) me levaram até a rodoviária. Meu coração estava tão apertado.... porque que dói assim?
Te amo minha irmã querida. Te amo.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

6 - Ano Novo em Berlim

"E acabou que o ano novo foi engraçado...

Tudo foi dando errado... até que acabou dando certo...
Desistimos de todas as propostas... e em Berlim as pessoas agitadas soltavam bombas pelas ruas... ainda esporadicamente.
Fomos comer falafel. Só nós duas, num restaurante vazio, com apenas dois garçons. Eles ficaram com pena do ano novo "delas" ser ali, naquele boteco árabe com eles. Por isso capricharam no nosso falafel. Foi um banquete!
Meia-noite. Pela grande vitrine do bar nós duas vimos o cenário revivido de guerra em Berlim. Um horror. Bombas estourando próximas. Fumaça. A fumaça se misturava com a fumaça do passado que emergia trazendo memórias enevoadas de gritos, violência e horror.
Eu tentava me manter presente à realidade e lembrar que era apenas ano novo. Não eram bombas. Eram fogos de artifício. Eram comemorativos... mas próximos demais! Ruidozos demais! Assustadores demais! Era um campo de guerra!!!O que ficou em mim foi uma sensação ruim.
Eis que chegaram dois moços. Um alto. Um baixo. Sentaram-se à nossa mesa. Inteligentes, gentis, doces e educados. Um, filósofo e músico, o outro, cientista político. Avessos às bombas e ruídos, conversaram com as duas mulheres como se deve conversar com duas pessoas.
Fomos os quatro para um pub próximo. Ótima música! Dançamos até às cinco da manhã!

E acabou que o ano novo foi ótimo... "


5 - Embaixada do Brasil em Berlim

No dia seguinte passei a manhã toda ligando para o achados e perdidos da cidade e dos ônibus, mas não conseguia falar. Era dia 30 de dezembro. Quase ano novo. No final da manhã consegui que me atendessem mas me disseram que a bolsa não estava lá. Como sabiam que não estava se não procuraram???

Fui na delegacia perto de onde eu estava. Fui muito bem atendida. Uma policial loura, alta, maravilhosa e muito bem educada veio me ajudar. Ela foi muito gentil e fez a ocorrência para mim. Saí de lá e então fomos, eu e Duda (que me apoiou muito neste momento), para a Embaixada Brasileira em Berlim. Levei comigo meu portifólio com os solos "Mulher Selvagem" e "O Vestido" e o portifólio da Cia Mário Nascimento. Era tudo o que eu tinha que confirmava que eu era eu.

Enquanto Duda usava a internet para se comunicar com meus pais e com o Mário para conseguir que enviassem uma cópia da minha carteira de identidade, eu fui muitíssimo bem recebida lá pela responsável : Anna Treno e também por toda sua equipe. Primeira coisa que ela perguntou foi se eu estava passando fome e se tinha onde dormir. Em seguida mostrei a ela meus portifólios. E ela disse que era uma honra estar diante de uma artista. Nem preciso dizer o quanto isso me emocionou. Ainda mais depois da noite terrível que eu havia passado. E ainda mais por eu viver no Brasil, um país onde os artistas não são respeitados.
Ela me disse que com os portifólios já era claro que eu era eu. E ela os anexou à minha documentação! Naquele momento senti plenamente que a Arte é realmente tudo o que eu tenho e que ali na Alemanha isso significava algo. Se no Brasil nos respeitassem como fui respeitada  na Embaixada Brasileira em Berlim... os artistas aqui estariam em melhores condições.
 Ainda consegui cópia de alguns documentos que minha produção me enviou (dei trabalho para eles até no ano novo! rs...). Resumindo, consegui fazer um passaporte rapidíssimo.

Querida Anna Treno e equipe, minha gratidão a vocês!
Quando eu for me apresentar em Berlim, vocês serão meus convidados!

Um grande abraço com muito carinho a vocês!

Rosa Antuña
foto: Duda Las Casas


4 - Apuros em Berlim

Bem, após a residência artística no Odin fui pra Londres passar natal com meu querido amigo Giovanni Ferrari. E no ano novo fui pra Berlim.
 Pois é. Foi aí. Foi aí que complicou tudo. Cheguei sozinha em Berlim dia 29 de dezembro de 2014 às 23:00hs. Fazia 6 graus negativos. Muita neve. Minhas amigas foram antes para lá e estavam me esperando no apartamento que alugamos.

Chego no aeroporto. Entro no ônibus. O ônibus para em Alexander Platz, em frente à estação de metrô. Desço. Dou alguns passos. Percebo que a minha bolsa verde não estava mais comigo. Um instante de profundo desespero. Outro instante de negação da realidade e no terceiro instante nasce em mim a necessidade urgente de solucionar o problema.

Voltei até o ponto de ônibus e tentei pegar um taxi e dizer a ele "siga aquele ônibus!"; mas não deu certo... primeiro porque não me comuniquei bem em alemão (morei em Dresden de 96 a 98, precisaria de um tempo pra resgatar o idioma perdido nos meus recônditos cerebrais que hoje apenas armazenam informações sobre projetos de Lei de Incentivo e editais e datas e quanto está faltando de dinheiro).
Fui então para o ponto de ônibus em frente e consegui dizer para o motorista que eu havia esquecido minha bolsa verde no outro ônibus. Ele deu um aviso pelo microfone em todos os ônibus. E responderam que nada foi encontrado. Agradeci. Desolada. Fui caminhando em direção ao metrô. Na neve. Menos 6 graus. Arrastando uma mala.

Sensação de impotência! Isso merece um parágrafo à parte, sem sombra de dúvida! Pois ali, naquele momento, pude corporificar, pude sentir plenamente, pude viver uma situação bem didática que demonstrava claramente o que é uma situação de impotência. Eu sabia que minha bolsa estava no ônibus. Sabia que o Ônibus estava indo para a garagem. Mas eu mal falava o idioma, não tinha nenhum documento(nem o passaporte), não tinha nem um centavo, nem um cartão de crédito, nem o celular, nem o tablet, nem minha agenda (com o endereço do apartamento onde eu ficaria hospedada) e nem uma barra de chocolate. Eu ali não era ninguém. Sem dinheiro, eu não tinha direito a nada. Fui reduzida instantaneamente a um floco de neve (isso porque eu estava na Alemanha, pois se eu estivesse no Brasil teria sido reduzida instantaneamente a uma bolota de merda).

Fui até a estação de metrô. E em vão tentei falar com um rapaz que trabalhava lá... mas ele apenas me disse onde era a polícia. Já era quase meia-noite. O movimento de pessoas nas ruas já havia reduzido bastante. Saí perambulando à procura da polícia. Não encontrei. É claro que Pai Benedito e todos os meus mentores estavam comigo e não me esqueci disso nem um momento. Passei em frente a um bar e havia um rapazinho simpático. Perguntei a ele onde era a polícia. Ele era argentino e pudemos falar em espanhol. Ele achou estranho e me perguntou para que eu queria ir na polícia. Ali não aguentei mais e abri a boca a chorar! Contei tudo. O que mais me afligia é que eu não tinha o endereço para onde eu deveria ir e as meninas tinham me dito que onde elas estavam estava sem internet!!!!! Bem, ele me chamou para entrar no bar, me pagou uma água e deixou que eu usasse a internet do celular dele. No meu facebook tinha inbox o endereço para onde eu deveria ir. E consegui pedir que amigos avisassem meus pais para cancelar meus cartões de crédito. O Lucas (o argentino) foi comigo até a polícia mas me mandaram esperar até o outro dia e me deram um telefone de achados e perdidos para eu ficar ligando. O Lucas foi extremamente gentil e atencioso e foi quem também me ajudou a pegar o taxi para o ap. Chegando no apartamento subi e pedi para a Duda pagar o taxi para mim.

Passei mal a noite inteira. Não conseguia acreditar que eu tinha esquecida minha bolsa verde com todo meu dinheiro e passaporte e tablet e celular e agenda e chocolate no ônibus em Berlim.

foto : Duda Las Casas