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No Dia em que Eu Morrer

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E na linha do tempo da existência seria a vida na Terra um hiato? Um hiato entre os dois pontos principais.
O de entrada. E o de saída.
E existe saída?
O que foi minha vida? – Um susto. Foi só um susto.
- Um surto. Foi só um surto.
- Um sonho ruim. Foi apenas um sonho ruim. Já passou. Já passou.
Depois que passa parece que tudo foi rápido demais.
E as coisas pelas quais eu brigava perdem imediatamente a importância.
Tudo perde a importância.
O que fica?
Qual o sentido de viver em um hiato?
O que é a vida? - Uma sala de espera. Tempo. Temos muito tempo.
E por pensarmos que temos muito tempo
Perdemos esse tempo.
Depois que perdemos o tempo percebemos que não temos mais tempo a perder.
Em nossa sala de espera.
Na verdade não importa muito o que fazemos para preencher o tempo da espera.
Mas precisamos nos ocupar com algo.
Com qualquer algo que nos ocupe, nos preencha e nos faça esquecer o que estamos esperando.
foto: Duda Las Casas

Participa da minha Loucura

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Vem. Participa da minha loucura e mata-me aos poucos. Como eu gosto. Sê meu cúmplice e mata-me aos poucos. Bebe-me quente, em dose única.
Participa da minha loucura e esfrega-me em teu corpo áspero. Deposita-me no chão frio e úmido e cospe-me qualquer palavra dita. Maldita hora em que me conheceste, pois agora, hás de convir que é tarde demais. Não desiste. Vai até o fim. Sou eu quem está pedindo. Bate-me, maltrata-me e cospe-me qualquer palavra quente. Maldita gente rude...
Participa na minha loucura e mata-me aos poucos. Como eu gosto. Mata-me lento e degusta a minha sorte. Sê meu cúmplice. Vou amar-te e levar-te à morte.
foto: Duda Las Casas
*este texto escrevi para meu espetáculo solo de dança e teatro "Mulher Selvagem". A estreia foi em 2007, no Sesc Ribeirão Preto, SP.

Um Nome

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Um nome!
É a única coisa que quero.
É a única coisa que preciso para voltar a existir.
Não precisa ser um nome composto.
Pode ser um nome simples, mas que tenha letra maiúscula.
Onde foi que perdi o fio?
Encontra a ponte e devolve meu nome.
Salva-me.
Antes que eu acabe com tudo.
Antes que eu me perca definitivamente em tuas florestas sombrias, antes que eu seque em teus desertos e me arranhe em teus espinhos.
Só eu posso te fazer sangrar muito e te afogar em tuas próprias lágrimas.
Salva-me enquanto é tempo.
Devolve o meu nome!
*escrevi este texto para o espetáculo “Mulher Selvagem”, primeiro solo da “Trilogia do Feminino”.

*Foto: Rony Moby (a foto foi na estreia do trabalho, no Sesc Ribeirão Preto, em 2010)

Sapatos Vermelhos

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Como foi que fiquei assim?

Os meus sapatos vermelhos eu mesma fiz com os retalhos que encontrei pelas ruas onde vivi. Eram o orgulho, a honra e a sobrevivência dessa pobre menina, durante o inverno.

Um dia vi uma carruagem dourada se aproximando. Ela parou do meu lado e de dentro dela uma velha senhora me convidou para ir com ela. Fui. Acreditei que o que ela me ofereceria seria muito melhor do que o que eu tinha!

Chegando na mansão da velha havia roupas e sapatos novos para mim. Tudo era bege claro. Me troquei e quando me dei conta, ela, a senhora, havia jogado os meus sapatos vermelhos na lareira.
Não deu para salvar nada. Restaram as cinzas. Cinzas e “beges claros”.

Ela quis que eu fizesse a primeira comunhão. Saímos para comprar sapatos novos para este evento tão importante para ela.
Entramos em uma loja onde havia um lindo par de sapatos vermelhos. Era tudo o que eu queria, mas a senhora nunca permitiria. Que que eu fiz? Na hora de embalar, troquei os sapatos beges horrorosos que…

Falo Por Ti

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Fiz este poema em 2008, para o espetáculo "Faladores", da Cia Mário Nascimento:
Se eu por tantas vezes te perdi Num sinal de total abnegação Não foi essa a minha intenção Eu quero aquela que estava aqui Agora falo por mim e falo por ti Venha já para me confortar direito Quero de volta a palavra no meu peito Libertando tudo o que estava trancado E me diz o que foi que fiz de errado Para vocês me olharem desse jeito?
Agora falo por mim e falo por ti
Venho tentando um discurso eloquente Não importa se você não entende agora Afinal são tantas línguas mundo afora Pois vivemos na Babel inconsciente Acreditando na mesma força onipresente Chamada Deus, Jeová ou outro eleito Presidente, governador, prefeito, Mestre, doutor ou bem letrado Qual palavra foi entendida errado Para você se olharem desse jeito?
Agora falo por mim e falo por ti
foto: Cláudio Etges

Nunca vi isso

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Nunca vi uma comemoração como essa. Com tanto ódio. No domingo à noite eu estava no carro com meu companheiro, passando pela Savassi, um grupo grande de eleitores de Bolsonaro no semáforo no cruzamento de Getúlio Vargas com Cristóvão Colombo exigiam que todos os carros ficassem buzinando em comemoração. Os carros que não buzinavam eles atacavam, chegando a cara no vidro e gritando: “petistas têm que morrer”! Foi muito intimidador. Fiquei com medo. Às minhas amigas e amigos que votaram nele e que me disseram várias vezes que não vai ter ditadura, que eu estava exagerando, vocês acham correto esse comportamento? Eu sou obrigada a buzinar em comemoração?
Às minhas amigas e amigos, às mães e pais de colegas minhas, que me conhecem desde que sou garota, vocês acham que sou uma “petista que tem que morrer”? Será que vocês entendem que nem todo eleitor de Bolsonaro é fascista, mas todos os eleitores fascistas votam nele? Vocês acham que sou uma comunista? vocês sabiam que não tem comunismo n…

A Dança Resiste

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Antes do segundo turno, alguns artistas da dança se uniram e fizeram este vídeo:


“Nós somos artista da Dança. Nós somos brasileiros. Nós somos a favor da democracia. Nossa categoria lutou muito para conquistar respeito. A Dança é o nosso trabalho. Há um candidato que é uma ameaça para nossa categoria. Ele é contra qualquer tipo de Fomento à Arte, pretende acabar com o Ministério da Cultura e afirmou que vai acabar com o ensino da Dança nas escolas. Nós, artistas da dança viemos dizer não a este retrocesso. Nós não apoiamos um candidato que exalta a repressão e a tortura. Nós não apoiamos um candidato que exalta a homofobia e a violência. Nós não apoiamos um candidato que despreza as mulheres. Nós não apoiamos um candidato racista. É importante que todos os artistas, profissionais e estudantes de Dança saibam que nós somos vítimas em potencial em um governo fascista.
A DANÇA RESISTE”